23.11.08
The End
Não vou mais escrever aqui.
Pelo menos, até dar na telha de novo. O que pode levar uns meses, semanas ou horas.
Mas, a princípio, estou encerrando as atividades aqui no blog.
É que decidi começar um projeto maior. Quero escrever qualquer coisa mais séria, profunda, pessoal. Algo como um manual de videocassete.
E você não escreve um manual de videocassete assim, de um dia para o outro, entre posts de blog. Não. Isso requer foco, concentração, dedicação. Eu preciso entrar em contato com um lado da vida que nunca entrei antes e buscar idéias nos cantos mais recônditos da minha alma.
Vai ser um mergulho profundo na minha psique. E aviso desde já: pode ser que eu voltei meio estranho, falando coisas esquisitas sobre programar o horário de gravação ou tracking automático.
Acontece que eu preciso tocar adiante uma idéia que tive há um tempo, durante uma viagem. Se vai virar alguma coisa? Não, não. Muito provavelmente vai ficar pronto, eu vou reler e jogar fora - como das últimas vezes que tentei. Na melhor das hipóteses, eu releio duas vezes antes de jogar fora.
Por isso, vou parar de escrever aqui.
Talvez eu devesse ter pensando em um grand finale pra cá. Mas nada aqui foi muito "grand", foi? Então, termino sem nenhuma revelação bombástica, do tipo "quem matou JFK" - embora eu possa dizer que suspeito seriamente do colesterol ou da gordura trans. Também não tenho nenhuma lição de vida, a não ser a seguinte: parem de colocar limão na Coca-Cola.
Não, aqui não tem grand finale. Acabou, acabou. Como Chica-Bon em dia quente de praia.
Como disse, pode ser que amanhã eu mude de idéia e caia em descrédito por causa disso. E aí ninguém mais vai acreditar em mim.
- Garçom, eu queria uma Coca-Cola, por favor...
- Ei, você não é o Daniell que disse que não ia mais escrever no blog? Como é que eu vou saber se você quer mesmo uma Coca-Cola? Você não tem a menor credibilidade aqui. Fora do meu estabelecimento!
Vou correr esse risco, sim.
Mas por enquanto, tenho para mim que não escrevo mais no blog.
Obrigado aos que comentaram e aos que leram. Admiro a persistência de vocês, mas não ia sair nada que prestasse daqui mesmo - só essas bobagenzinhas de sempre. Dêem notícias, ocasionalmente, porque eu me apeguei muito aos comentários de vocês.
E, até segunda ordem, esse aí embaixo é o ponto final:
.
13.11.08
You Can Call Me Al
Esse aí de cima, sabe quem é? Daniell Soul. Assim, com dois Ls mesmo. Como eu.
Descobri quando fui ver o que apareceria se eu procurasse "Daniell" no youtube. "Daniell", com dois Ls, é um sobrenome suficientemente comum lá fora, eu acho. Como o do químico que inventou a Pilha de Daniell - coincidentemente, ele carregava o sobrenome "Daniell".
Acontece que, como primeiro nome, eu ainda não havia visto. Muito menos no Brasil.
E agora me aparece esse Daniell Soul. Fico preocupado, por dois motivos.
Primeiro, sei lá o que esse aí anda fazendo com o meu primeiro nome (e esse vídeo aí, a bem da verdade, não me parece muito animador).
Segundo, porque ele é Daniell Soul. Esse era pra ser o meu nome artístico, quando eu me lançasse como James Brown cover. O sujeito nem sequer canta James Brown. O nome da música que Daniell Soul canta no vídeo é "Pedes o que Queres". Um nome desses não inspira uma música tão dançante como "Papa's Got a Brand New Bag".
Por isso, Daniell Soul, caso você também tenha chegado aqui procurando pelo seu nome, por favor:
Olha lá o que você anda fazendo com o meu nome. Eu não quero ter que mudar de nome para Rafaell Funky. Já faço bastante besteira usando os meus próprios Ls. Aliás, eu ficaria feliz também se você melhorasse o seu repertório.
Já tentou Otis Redding?
6.11.08
Cotidiano no. 2
Finalmente, depois de seis meses com uma Via Dutra nos separando, tenho de volta o meu violão. E é justamente por isso que passei um tempo sem escrever: precisava matar as saudades.
Tenho ensaiado bastante toda a minha obra para violão. Nem deveria tomar tanto tempo, porque ela consiste em uma única peça: "Variações para Concerto n. 1 para Violão e Orquestra de Daniell Rezende".
É curioso que eu tenha conseguido compor as variações para esse meu concerto. Leve em conta que o concerto em si,eu nunca cheguei a compor. Fui direto para as variações, para poupar tempo.
Também nunca cheguei a compor o meu Concerto n. 1 para Violão e Orquestra porque, para isso, eu precisaria de uma orquestra. E sempre tive muita dificuldade em encontrar violoncelistas. Estava com a orquestra completa, mas não apareceu sequer um violoncelo.
Até cheguei a ver uma mulher que carregava uma capa de violoncelo aqui perto. Perguntei se ela estava interessada em participar de uma orquestra, mas ela não tinha nenhum violoncelo dentro da capa e explicou-me que usava aquilo para carregar fígados contrabandeados.
Como estavam baratos, comprei três fígados e implantei dois deles em mim, deixando o terceiro para uma ocasião especial, como uma reunião importante ou uma viagem.
O fato é que estou aqui com o meu violão e não preciso de mais nada. Ou ao menos, não de muita coisa. Só o violão já me basta.
Os fígados também, naturalmente.
Tenho ensaiado bastante toda a minha obra para violão. Nem deveria tomar tanto tempo, porque ela consiste em uma única peça: "Variações para Concerto n. 1 para Violão e Orquestra de Daniell Rezende".
É curioso que eu tenha conseguido compor as variações para esse meu concerto. Leve em conta que o concerto em si,eu nunca cheguei a compor. Fui direto para as variações, para poupar tempo.
Também nunca cheguei a compor o meu Concerto n. 1 para Violão e Orquestra porque, para isso, eu precisaria de uma orquestra. E sempre tive muita dificuldade em encontrar violoncelistas. Estava com a orquestra completa, mas não apareceu sequer um violoncelo.
Até cheguei a ver uma mulher que carregava uma capa de violoncelo aqui perto. Perguntei se ela estava interessada em participar de uma orquestra, mas ela não tinha nenhum violoncelo dentro da capa e explicou-me que usava aquilo para carregar fígados contrabandeados.
Como estavam baratos, comprei três fígados e implantei dois deles em mim, deixando o terceiro para uma ocasião especial, como uma reunião importante ou uma viagem.
O fato é que estou aqui com o meu violão e não preciso de mais nada. Ou ao menos, não de muita coisa. Só o violão já me basta.
Os fígados também, naturalmente.
27.10.08
Ob-La-Di Ob-La-Da
Fui a um casamento no sábado. E fiquei bastante satisfeito de ver a felicidade do noivo. Era daquelas felicidades contidas e honestas, só um sorriso estampado na cara, sem discursos, sem pose. Fiquei satisfeito porque ele é uma ótima pessoa e merece.
Talvez, no entanto, eu tenha atrapalhado a cerimônia.
Quis levar arroz para jogar nos noivos, mas não tinha arroz branco aqui em casa, só um risoto de funghi. Achei que serviria. No entanto, passou um pouco do ponto e eu ainda exagerei na manteiga. Acho que foi por isso que os outros convidados não acharam legal a chuva de risoto de funghi que fiz.
Ou então foi porque, em vez de algum acompanhamento mais adequado ao risoto, levei apenas salsichas e uma garrafa de vinho do Além-Tejo. Vinho do Além-Tejo, acredito, não harmoniza bem com risoto de funghi. Muito menos com salsichas.
Outro problema foi eu ter arremessado a garrafa inteira, e não apenas o líquido contido nela. Foi assim: joguei o risoto. Notando o constrangimento dos outros convidados, joguei também as salsichas. Pensei que fosse agradar, mas todos ficaram ainda mais chocados. E aí, numa última tentativa de consertar a gafe, arremessei a garrafa, que acertou em cheio o noivo.
Com o noivo desmaiado na saída da igreja, preferi nem jogar a sobremesa. Pena, era sorvete de chocolate. No calor que tem feito ultimamente aqui, o sorvete talvez fosse ajudar.
De qualquer modo, foi bom ver o noivo caído na escadaria, com aquele mesmo sorriso sereno na cara. Infelizmente, ele não conseguiu aproveitar o resto da festa, mas foi bem divertido.
Talvez, no entanto, eu tenha atrapalhado a cerimônia.
Quis levar arroz para jogar nos noivos, mas não tinha arroz branco aqui em casa, só um risoto de funghi. Achei que serviria. No entanto, passou um pouco do ponto e eu ainda exagerei na manteiga. Acho que foi por isso que os outros convidados não acharam legal a chuva de risoto de funghi que fiz.
Ou então foi porque, em vez de algum acompanhamento mais adequado ao risoto, levei apenas salsichas e uma garrafa de vinho do Além-Tejo. Vinho do Além-Tejo, acredito, não harmoniza bem com risoto de funghi. Muito menos com salsichas.
Outro problema foi eu ter arremessado a garrafa inteira, e não apenas o líquido contido nela. Foi assim: joguei o risoto. Notando o constrangimento dos outros convidados, joguei também as salsichas. Pensei que fosse agradar, mas todos ficaram ainda mais chocados. E aí, numa última tentativa de consertar a gafe, arremessei a garrafa, que acertou em cheio o noivo.
Com o noivo desmaiado na saída da igreja, preferi nem jogar a sobremesa. Pena, era sorvete de chocolate. No calor que tem feito ultimamente aqui, o sorvete talvez fosse ajudar.
De qualquer modo, foi bom ver o noivo caído na escadaria, com aquele mesmo sorriso sereno na cara. Infelizmente, ele não conseguiu aproveitar o resto da festa, mas foi bem divertido.
22.10.08
Êta Baião
(Dominguinhos)
Saudades de quando eu tive um grupo de forró. E não era um desses grupinhos de forró universitário que apareciam a torto e a direito na época. Em parte, porque já éramos formados. E o zabumbista, aliás, estava fazendo mestrado em filosofia.
Isso foi um problema, o mestrado em filosofia do zabumbista. Porque ele veio com umas idéias. Queria fazer letras baseadas na obra de Nietzche e se negava a tocar Jackson do Pandeiro porque, de acordo com ele, suas músicas não tratavam da verdadeira condição humana.
Depois de muito discutir, o zabumbista nos convenceu a trocar os instrumentos do grupo.
Eu, por exemplo, tocava um velho acordeão, que havia comprado na época em que quis ser Astor Piazzolla. Mas troquei a sanfona por setenta e oito copos com água dentro (ele ainda havia sugerido mistruar xarope de groselha, para dar um interessante efeito visual).
De resto, teríamos gaita-de-fole, cravo e um gongo. Só o zabumbista continuaria com sua zabumba.
Nada daquilo parecia fazer muito sentido, mas ele havia lido a obra completa de Schopenhauer e, por isso, era difícil argumentar qualquer coisa contra.
Em pouco tempo, não estávamos mais tocando forró. Fazíamos músicas profundas em ritmos inclassificáveis. Quando tentávamos fazê-lo tocar forró, ele sempre nos fazia pensar:
- Mas o que é o forró? Por que o forró é forró mas essa cadeira não pode ser o forró?
Fomos perdendo todo o espaço que havíamos conquistado para os shows por conta disso. As pessoas não estavam interessadas em ouvir o nosso hit "Assim Sambou Zaratrusta" - um misto de samba de breque com piedmont e metal progressivo. E ainda assim, o zabumbista não quis voltar a tocar forró.
Ele insistia nas músicas de sons densos e que abordavam temas para fazer a humanidade refletir.
A única excessão que ele permitia era "Eu Só Quero um Xodó", do Dominguinhos, porque ele gostava da levada da música.
17.10.08
The Fool on the Hill
(Enjoy the Silence, Depeche Mode)
Ando pensando em passar outra temporada em reclusão, isolado do resto do mundo, sem contato com o mundo e sem escrever nada durante um tempo. De vez em quando, é bom e produtivo levar uma vida de eremita.
Da última vez, por exemplo, fui para as montanhas. Levei apenas a minha cadeira de praia, uma edição pocket de Moby Dick e o meu ukulele - o básico para uma reclusão saudável.
Nesses períodos de isolamento, a gente sempre aprende muito. Aprendi, por exemplo, a tocar "Nowhere Man" e "Lua Vai" no ukulele, além de tirar a harmonia da segunda parte do Hino da Birmânia. E isso foi um pouco estranho, porque eu nunca tinha escutado o hino da Birmânia.
O ukulele, como você deve ter notado, me foi muito útil naqueles dias.
(A cadeira de praia é que não serviu de muita coisa: eu estava nas montanhas e, aparentemente, ela só funcionava na praia.)
E eu já estava quase terminando de musicar Moby Dick como um grande ragtime em dó maior, quando chegou o resgate. Apesar de não ter pedido resgate em momento algum, acabei aproveitando a carona.
Na pressa, esqueci minhas partituras de Moby Dick. Só lembro que começa com um Mi e a letra "call me Ishmael" cantada por um barítono. Nas montanhas, na falta de um barítono, o máximo que havia conseguido era um bode. Foi bem difícil ensiná-lo a cantar "Ishmael" com a pronúncia correta.
12.10.08
I Fought the Law (and the law won)
Já tive lá o meu período no mundo do direito, da lei e da justiça. Foi uma época boa. Ou pelo menos, deveria ter sido: os tribunais, a cobertura da imprensa, o poder. Tudo aquilo que vemos nos filmes.
Eu gostava de ir aos tribunais e gritar, empolgado:
- Objection, your honor!
Gritava "objection" a torto e a direito. Qualquer pergunta que se fazia às testemunhas levava prontamente um "objection" meu. Nem sempre funcionava, mas às vezes confundia o pessoal. Como por exemplo quando o juiz entrou na sala, veio aquele pedido para que todos se levantasse e eu gritei:
- Objection!
Ganhei a causa naquele momento. Ninguém entendeu nada e, no meio da confusão, o réu que eu estava defendendo fugiu. Bem, para mim, isso é ganhar a causa - o meu cliente está em liberdade. Ele hoje vive disfarçado como dono de uma queijaria na Rue Mouffetard, em Paris. Nunca pagou os meus honorários, mas volta e meia eu recebo um postal e um brie aqui em casa.
Gostava também de discursar para o júri. Era o momento crucial de qualquer julgamento. Lembro da minha melhor defesa até hoje:
- Senhores, eu não posso garantir que o meu cliente seja inocente. Mas posso garantir que ele toca acordeão como ninguém.
E em seguida, fizemos uma versão de "Send Me to the 'Lectric Chair" da Bessie Smith, com acordeão e ukulele. O júri não absolveu o réu, mas nós dois conseguimos um contrato para tocar uma temporada em um pub.
Abandonei o direito quando tive minha primeira grande decepção com a justiça. Foi muito triste perceber que quase toda aquela gente não ligava pro que era justo ou injusto, mas sim para o tanto que poderiam lucrar com uma coisa ou outra. Também foi triste quando eles perceberam que eu não era formado em direito e me proibiram de advogar. E eu que achava que bastava ter um anel vermelho e usar uma peruca branca como a que Handel usava.
Eu gostava de ir aos tribunais e gritar, empolgado:
- Objection, your honor!
Gritava "objection" a torto e a direito. Qualquer pergunta que se fazia às testemunhas levava prontamente um "objection" meu. Nem sempre funcionava, mas às vezes confundia o pessoal. Como por exemplo quando o juiz entrou na sala, veio aquele pedido para que todos se levantasse e eu gritei:
- Objection!
Ganhei a causa naquele momento. Ninguém entendeu nada e, no meio da confusão, o réu que eu estava defendendo fugiu. Bem, para mim, isso é ganhar a causa - o meu cliente está em liberdade. Ele hoje vive disfarçado como dono de uma queijaria na Rue Mouffetard, em Paris. Nunca pagou os meus honorários, mas volta e meia eu recebo um postal e um brie aqui em casa.
Gostava também de discursar para o júri. Era o momento crucial de qualquer julgamento. Lembro da minha melhor defesa até hoje:
- Senhores, eu não posso garantir que o meu cliente seja inocente. Mas posso garantir que ele toca acordeão como ninguém.
E em seguida, fizemos uma versão de "Send Me to the 'Lectric Chair" da Bessie Smith, com acordeão e ukulele. O júri não absolveu o réu, mas nós dois conseguimos um contrato para tocar uma temporada em um pub.
Abandonei o direito quando tive minha primeira grande decepção com a justiça. Foi muito triste perceber que quase toda aquela gente não ligava pro que era justo ou injusto, mas sim para o tanto que poderiam lucrar com uma coisa ou outra. Também foi triste quando eles perceberam que eu não era formado em direito e me proibiram de advogar. E eu que achava que bastava ter um anel vermelho e usar uma peruca branca como a que Handel usava.
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